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Projeto na maior ocupação urbana do Paraná usa pintura para trabalhar traumas de vítimas de violência doméstica


Foz do Iguaçu, que abriga projeto, é cidade com maior número de feminicídos do PR no 1º semestre de 2023. Obras feitas por participantes do projeto marcam Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Projeto usa pintura para trabalhar traumas de vítimas de violência Na maior ocupação urbana do Paraná, o Bubas, uma iniciativa social oferece a meninas e mulheres vítimas de violência sexual e doméstica e em situação de vulnerabilidade social a oportunidade de ressignificar um mundo pode parecer sem horizonte, sem cor. O Projeto Coração, em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, incentiva as participantes a, através de traços, tintas e pincéis, expressar sentimentos, traumas, dores. “Essas expressões do que não se consegue dizer em palavras, quando você pinta, você dá vazão ao que sente, muitas vezes você retrata por exemplo algo que você acha belo, uma paisagem, mas às vezes você retrata o barulho da tua mente. A arte tem esse poder de transmitir e curar", afirmou a policial militar Ana Paula dos Santos, que ministra aulas de pintura no projeto. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp ✅ Siga o canal do g1 PR no Telegram A ação começou em 2019 e atende anualmente 60 mulheres e meninas na cidade que, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública, mais registrou feminicídios no primeiro semestre no Paraná. Em seis meses, foram quatro mulheres assassinadas. O município também registrou 3,3 mil casos de violência doméstica no mesmo período, uma média de 560 ocorrências por mês, ficando em sexto lugar no ranking estadual. Desenho feito por participante do projeto social no PR Proejeto Coração Como forma de marcar neste sábado (25) o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, mulheres e meninas que participam do projeto foram incentivadas a desenhar corações, que fazem alusão ao símbolo da iniciativa, como forma de mostrar que a esperança e caminho para o fim desta brutal realidade. “É importante que a gente chame a atenção para a causa, para os atos violentos contra meninas, mulheres, que a sociedade permite ainda. A gente vê o aumento do feminicídio, da violência contra a mulher. [...] É preciso que as pessoas vejam também pela cultura e arte, a movimentação para aniquilar o abuso, a violência contra meninas e mulheres”, afirmou a coordenadora do projeto Scheila Melo. Projeto inventiva desenhos como forma de vítimas de violência expressarem sentimentos Projeto Coração/Divulgação Violência contra mulher: Veja os canais de denúncia disponíveis no Paraná clicando aqui Ciclo da violência em relacionamentos abusivos: Saiba como identificar A arte que salva Expressar os sentimentos através da pintura já trouxe lágrimas e gatilhos diversos a uma das mulheres que participa do projeto. Em respeito à vítima e aos filhos dela, o nome não será revelado na reportagem. Ela conta que foi vítima de abuso sexual e violência doméstica durante os 10 anos em que foi casada. "Tudo começou com menos de um ano de casados. Começaram os primeiros gritos, empurrões, e eu achava que estava tudo bem, já que estávamos começando. Engravidei da minha primeira filha e as agressões maiores começaram aí. Eu tive luxação na cabeça, me empurrou na parede, me jogou no chão, bateu, tudo que é desprezível, nojento de fazer com uma mulher, ele fez”, relatou a mulher. Projeto inventiva desenhos como forma de vítimas de violência expressarem sentimentos Projeto Coração Na época, vivendo longe da família, ela tentou buscar ajuda com os familiares do então marido. A mulher conta que foi aconselhada a perdoar e que isso logo mudaria com o nascimento do bebê. Mas nada mudou. As brigas e agressões perduraram por 10 anos e se estenderam também aos três filhos que eles tiveram. “Não procurei ajuda para sair desse relacionamento. Eu olhava na rua, parecia que estava em uma bolha. Parece que quando a gente olha para as pessoas, que elas vão contar para ele que estamos tentando sair disso. Não é fácil, a gente fica tão presa naquela situação, medo de apanhar novamente, de sofrer e assim foi por 10 anos”, relembrou a vítima. Ela revelou que, após um dos episódios de agressões, acordou com um facão ao lado dela na cama e que viu mensagens no celular do agressor negociando a compra de uma arma. Dias depois, em uma confraternização de fim de ano, já vivendo novamente em Foz do Iguaçu e perto dos familiares, a vítima conta que o ex-marido teve uma discussão acalorada com eles, momento em que ela decidiu contar tudo que havia passado. O fim do relacionamento completa sete anos em dezembro e deixou marcas que reverberam no atual relacionamento vivido por ela, mas que já a não impedem de viver e acreditar que existem outros caminhos a se trilhar. Projeto inventiva desenhos como forma de vítimas de violência expressarem sentimentos Projeto Coração Parte do processo de voltar a crer na vida foi conquistado graças à iniciativa do Projeto Coração. Ela e a filha mais velha vão juntas aos encontros que ocorrem todos os sábados na comunidade. O que era dor, agora começa a tomar forma e, com o passar do tempo, vai se transformando em cura através de cores. "Chegar no projeto é muito bom, gratificante. As atividades de pintura me trazem um sentimento leve, gostoso. [...] É libertador e a pintura é o que mais me permite isso porque agora são traços leves e uma forma livre de expressar o que sinto. [...] Ainda me despertam alguns gatilhos, mas quero mostrar aos meus filhos que não precisam passar pelo que passei", disse vítima. Dos traços do trauma a um novo sentido para a vida Os desenhos que contam com orientação da policial militar Ana Paula revelam muito do que vivem as meninas e mulheres atendidas pela iniciativa. Alguns com traços mais alegres e cores quentes, outros com cores frias e linhas que remetem ao medo, desilusão. “Uma das coisas que me impactaram muito foi ver alguns traços, porque assim a arte é uma expressão não verbal e nem todos tem aquela facilidade de dizer o que sentem. Enquanto você pinta, você mostra as emoções, os sentimentos. Alguns dos desenhos refletem vida, outros revelam traços de muta dor”, contou a policial. Projeto inventiva desenhos como forma de vítimas de violência expressarem sentimentos Projeto Coração As atividades de pintura contam com a coordenação da psicóloga do projeto Pamella Potratz, que através dos traços consegue identificar questões pessoais de cada adolescente e mulher atendidas pela iniciativa. Ela explicou que através disso, além de oferecer um atendimento mais específico para cada situação vivenciada pelas participantes, consegue fazer as meninas e mulheres perceberem que vivenciam questões por vezes parecidas, criando uma conexão entre o grupo. "Através do desenho, elas conseguem ver que a colega do grupo também já vivenciou isso. Então desenvolvem empatia com o grupo. [...] Então a gente faz esse acolhimento com elas para mostrar que elas não estão sozinhas ali, então, eu acho que a principal questão é a empatia", destacou a psicóloga. Desenvolver este espaço nem sempre é fácil e envolve diversos desafios, mas a iniciativa já tem levado a resultados muitos positivos a meninas e mulheres que já participaram das atividades. “A gente tem ótimos resultados com as meninas de outras turmas que a gente já finalizou. Então tem algumas que já estão trabalhando. [...] A gente consegue mostrar para elas uma outra visão de mundo, com as nossas aulas", destacou a psicóloga. “Para uma pessoa que sofreu abuso, que vive em extrema pobreza, em alguma outra situação difícil, você traz esperança, uma luz no fim do túnel para ela, que ali não é o fim e que tudo pode ser transformado", afirmou a policial. Além da policial que ministra as aulas de pintura e da psicóloga, o projeto envolve também outros profissionais em atividades que incluem orientações sobre estratégia de combate e prevenção a violência contra mulher e família, aulas de educação ambiental e sustentabilidade, política e cidadania, defesa pessoal e esportes, comunicação e literatura, empreendedorismo e psicologia. O Bubas A ocupação localizado no bairro Porto Meira teve início em 2013. Naquele ano, foi iniciada uma disputa judicial entre aqueles que precisavam de um local adequado para morar e os proprietários da área que tem cerca de 40 hectares. Vivem no local atualmente cerca de 2 mil famílias. Através de fotografias da área, uma análise da Universidade da Integração Latino-Americana (Unila) constatou que há muitos anos o terreno estava sem uso. Moedores aguardam há anos a regularização da área e pagamento de indenização aos antigos proprietários por parte do poder público. A região já vem passando por processo de urbanização. VÍDEOS: Mais assistidos g1 PR Leia mais notícias da região em g1 Oeste e Sudoeste.

source https://g1.globo.com/pr/oeste-sudoeste/noticia/2023/11/26/projeto-na-maior-ocupacao-urbana-do-parana-usa-pintura-para-trabalhar-traumas-de-vitimas-de-violencia-domestica.ghtml
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