Após ser violentada por professor, criança autista criou resistência à escola: 'Escondia a mochila', diz mãe


Professor foi denunciado à Justiça por estupro de vulnerável e armazenamento de imagens de abuso infantil. Vítima tem síndrome de Down e dificuldades de se comunicar verbalmente. Mãe de criança abusada por professor relata trauma: 'Dor imensurável' A mãe de um menino de 11 anos que foi violentado sexualmente por um professor dentro da escola onde estudava relata que o filho teve mudanças de comportamento depois dos abusos e passou a ter resistência para ir à aula. Ela percebeu as mudanças antes de ser informada pela polícia de que os abusos tinham acontecido. "Ele escondia a mochila em casa, não queria descer do carro, chorava. Coisas que ele nunca fazia, porque ele sempre amou ir para a escola", afirma a mãe. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp ✅ Siga o canal do g1 PR no Telegram Conforme a mãe, a vítima tem síndrome de Down e autismo. Segundo o Ministério Público do Paraná (MP-PR), os abusos aconteceram dentro do banheiro de uma escola particular, em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba. O MP afirmou, em denúncia à Justiça, que o homem filmou os abusos sexuais contra o menino e uma segunda criança. Os materiais foram publicados na deep web – área da internet que não pode ser encontrada por buscadores como o Google - e acabaram identificados pela polícia norte-americana que denunciou o caso às autoridades brasileiras. O professor está preso desde janeiro de 2024 e responde por estupro de vulnerável e armazenamento de pornografia infantil. O nome dele e da escola não foram oficialmente divulgados. O caso tramita em segredo de Justiça. Veja a cronologia do caso: Prisão em janeiro: Homem é suspeito de armazenar e produzir pornografia infantojuvenil Investigação: Professor é acusado de abusar de duas crianças em escola e postar na deep web Colaboração internacional: Crime de professor foi descoberto pela polícia norte-americana 'É destruidor, é cruel': Mãe de criança com síndrome de Down e autismo abusada relata trauma Sinais de atenção no comportamento Conforme o delegado Rodrigo Rederde, do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes da Polícia Civil em Curitiba, sinais podem ser observados pelos responsáveis na criança que demonstrem um possível indicativo de abuso. "Se estamos falando de violência sexual, provavelmente a vítima vai dar indícios de falta de atenção ou, quando muito nova, atitudes relacionadas com promiscuidade muito avançada, coisas que não poderia entender naquela idade. Às vezes também medo do toque, insônia, medo do escuro, de uma presença masculina, até do próprio pai. Além disso, a falta de rendimento escolar, falta de atenção", explica Rederde. Alguns desses sinais foram percebidos pela mãe de uma das vítimas do professor. De acordo com ela, a criança é amável, querida, carinhosa, calma e fácil de lidar. Depois da violência a qual foi submetida, passou a ter comportamentos agressivos e a se isolar. Crianças vítimas de violência sexual costumam apresentar sinais, diz delegado RBS/Reprodução Veja também: Violência: Influenciador Nick Fontana é atacado com golpes de facas em Curitiba 'Erro de sistema': Jovem de 19 anos que tem carteira de trabalho assinada há 27 anos no local Entenda: Investigação da PF encontra 3 milhões de dólares em parede de mansão "Ele começou a se fechar, a não brincar mais com as crianças. Eu ia no parquinho e ele se isolava. Ele começou a fazer xixi na cama, não queria dormir no quarto dele sozinho e ficou agressivo. Não conseguia comer, não queria ir fazer a terapia", relembra. Inicialmente, ela não imaginou que se tratasse de uma situação de violência sexual, mas buscou terapias para entender o que estava acontecendo com o filho. Todo o processo ficou ainda mais difícil porque a criança tem apraxia da fala – distúrbio na qual a pessoa tem dificuldades para formular frases e se comunicar verbalmente. Dessa forma, ela tinha dificuldades para contar o que havia passado. A mãe acredita que isso transformou o filho dela em uma "presa fácil" para o abusador. Agora ela pede que os pais prestem atenção nos comportamentos dos filhos. "Que isso sirva de alerta. É algo muito difícil, principalmente quando a criança não consegue falar o que está acontecendo, mas ela dá sinais e esses sinais não podem ser ignorados, nem distorcidos", reforça. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), de 204 milhões de crianças com menos de 18 anos, 9,6% sofrem exploração sexual; 22,9% são vítimas de abuso físico; e 29,1% têm danos emocionais. Conforme os dados, a cada 24 horas, 320 crianças e adolescentes são explorados sexualmente no Brasil – no entanto, esse número pode ser ainda maior, uma vez que apenas 7 a cada 100 casos são denunciados. Ao identificar um sinal de violência ou negligência contra crianças e adolescentes, qualquer pessoa pode fazer uma denúncia, até mesmo anônima. Os canais disponíveis atualmente são o 156, 181 e Disque 100, todos com ligação gratuita. Acusado era tutor do aluno Criança abusada sexualmente por professor em escola teve mudança de comportamento Reprodução/RPC O acusado era tutor da criança na escola. Por conta disso, a acompanhava em todas as atividades e lugares: na quadra, no recreio e até mesmo ao banheiro. Foi em um banheiro da escola, inclusive, que os abusos aconteceram, de acordo com denúncia do MP. De acordo com a investigação, o crime aconteceu no fim de 2022, porém, a mãe teve conhecimento sobre o caso apenas no início de 2024. Ela relata que quando soube do abuso, a criança não estudava mais na escola. "É como se eu tivesse imposto uma bomba dentro da minha boca e me explodido. Eu saí sem rumo, sem direção. Eu estou juntando meus pedacinhos espalhados por todo lugar, com o apoio das pessoas, com oração, com a força que eu sinto ao olhar o meu filho e ver que ele precisa de mim, porque é destruidor, é cruel, é uma dor imensurável", desabafa. O que diz a escola Em nota, a escola se solidarizou com as famílias, destacou que demitiu o professor tão logo soube do caso e explicou que colabora com as investigações. Afirmou, ainda, que dos dois casos investigados pelo MP, disse ter conhecimento de um. "Até o momento a escola tem ciência de um caso, mas o Ministério Público divulgou em nota sobre dois casos, o que ainda a instituição não tem conhecimento [...] Reiteramos que todas as medidas de segurança em nossa instituição foram minuciosamente revisadas e intensificadas para garantir um ambiente seguro e acolhedor para os estudantes durante todo o ano letivo." A escola também disse que como iniciativa preventiva, está desenvolvendo "um plano abrangente de ação que inclui palestras, orientação psicológica e programas de conscientização para alunos, pais e toda a comunidade para orientar como identificar" um possível abusador. Busca por Justiça e cura A mãe conta que ela e o filho estão passam atualmente por um processo de cura. Em 2023, depois da mudança de comportamento do menino, ele passou por terapias alternativas e apresentou uma melhora, mas ainda há um longo caminho pela frente. "Ele sente que eu estou sofrendo. O que vai me fazer me levantar e me estruturar de novo é esse senso de justiça, fazer com que isso não aconteça nunca mais com nenhuma criança, porque é muita crueldade. Nunca mais na minha vida eu vou esquecer, mas eu vou me reerguer. Eu estou cada dia melhor, porque eu vou fazer justiça", reforça. VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Paraná.

source https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2024/03/09/apos-ser-violentada-por-professor-crianca-autista-criou-resistencia-a-escola-escondia-a-mochila-diz-mae.ghtml
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