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Filha de copiloto morto em sequestro de avião se especializa em combater aerofobia: ‘Me reconectei com a minha própria história’


Salvador Evangelista, pai de Wendy, era copiloto do voo 375 que se tornou palco de um sequestro que abalou o país. Wendy Evangelista ao lado do pai, Salvador Evangelista Arquivo pessoal A curitibana Wendy Evangelista, de 43 anos, é psicóloga e hoje trata pessoas que têm aerofobia - medo de voar de avião. O caminho até começar a atuar na área passa por momentos traumáticos, que a deixaram sem voar por mais de 10 anos. Um deles foi a morte do pai, Salvador Evangelista, copiloto do voo 375 da Viação Aérea São Paulo (Vasp) palco de um sequestro que abalou o país. Relembre a história abaixo. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp ✅ Siga o canal do g1 PR no Telegram Além disso, Wendy perdeu o padrasto também em um voo, viu a avó desmaiar dentro de um avião e ainda perdeu a irmã em um acidente de carro - o corpo precisou ser transportado de avião. Todos os eventos contribuíram para a curitibana evitasse voar. A história do avião sequestrado por um homem que tentou cometer um atentado contra o Palácio do Planalto, em Brasília, virou o filme "Sequestro do Voo 375", que estreou nos cinemas na semana passada. Wendy relembra que o sequestrou foi cinco dias antes do aniversário de 8 anos dela. "O voo nem era dele, ele trocou o voo para estar comigo no meu aniversário. Essa foi uma das coisas que me marcou no começo de um jeito ruim, mas depois eu entendi que, de tudo que eu lembrava, isso era totalmente compatível com ele, trocar o voo pra estar comigo", disse. Wendy Evangelista vestida com as roupas do pai, Salvador Evangelista Arquivo pessoal Traumas Cerca de um ano após perder o pai, o padrasto de Wendy perdeu a vida em um acidente de avião de menor porte. Ele estava tirando o brevê - documento que dá a permissão para pilotar aviões - e, quando voava para uma ilha, a aeronave caiu no mar no Rio de Janeiro. Outro momento que marcou a vida da psicóloga foi quando, em uma viagem com a avó, para Brasília, para receber uma medalha de honra ao mérito do pai, viu a avó desmaiar e passar mal no avião. "Estava um temporal e eu lembro que olhei para a asa e vi que iluminava [dos relâmpagos]", relembra. Em 1994, um acidente de carro tirou a vida da irmã, no interior de São Paulo. A família morava no Rio de Janeiro e o corpo da irmã precisou ser transportado de avião. Para ela, aquele foi mais um evento traumático e triste. Tudo isso contribuiu para que Wendy criasse aversão ao meio de transporte que chegou a fazê-la tão feliz quando criança. Wendy Evangelista ao lado do pai, Salvador Evangelista Arquivo pessoal Uma vida nos ares A psicóloga ressalta que, apesar de ter convivido com o pai por apenas 8 anos, a relação era intensa. Ela viajava muito com ele nas aeronaves e relembra que não sabia que aquilo era atípico para outras crianças, já era rotineiro para ela. "Era uma extensão de casa, eu gosto de dizer. Era comum, corriqueiro. Estar no avião sempre foi muito bom", lembra. Ela era filha única e disse que Salvador amava ser pai e ser piloto, pois lutou muito para conquistar o mundo da aviação. Do trauma à cura Por uma década, Wendy evitou os céus e usava inúmeras desculpas para não entrar em uma aeronave. Sugeria à família de fazer viagens apenas de carro, dentro do Brasil, conhecendo outras cidades no percurso. A mudança, segundo ela, chegou quando teve filhos e sentiu que era hora de enfrentar o medo e os traumas. Ela lembra que a experiência de voar ao lado do pai lhe deu oportunidades, memórias, e que os filhos teriam direito de também viver isso. Foi quando Wendy realizou um tratamento e passou a estudar o assunto. Essa jornada de superação a fez focar o trabalho na ajuda a pessoas que compartilham o mesmo medo. "Se eu conseguir voltar a voar, eu tinha certeza que eu poderia ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo e não subestimando a fobia das outras pessoas. [...] Eu sei o quanto aquilo trava e o quanto lá dentro não é racional. Eu resolvi trabalhar com isso e no processo eu me reconectei com a minha própria história, então é algo maravilhoso", disse. Atualmente, ela é psicóloga e especialista em aerofobia. Um dos tratamentos realizados é acompanhar o paciente em quatro voos em um dia. Ela explica que o processo envolve trabalhar os pensamentos e os sintomas da ansiedade dentro do avião, não conhecendo apenas a máquina, mas a própria mente. Avião 375 da Vasp, sequestrado em 1988 TV Globo/ Acervo Relembre o sequestro Em 29 de setembro de 1988, o voo 375, operado pela extinta Viação Aérea São Paulo (Vasp), partiu do Aeroporto Internacional de Porto Velho, em Rondônia, com destino ao Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. O voo tinha escalas previstas nos aeroportos de Cuiabá, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte. O avião era comandado pelo piloto Fernando Murilo de Lima e Silva e pelo copiloto, Salvador Evangelista. 98 pessoas estavam a bordo. Entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro, um dos passageiros anunciou o sequestro da aeronave. O passageiro era o maranhense Raimundo Nonato Alves da Conceição, de 28 anos. Ele mandou os pilotos desviarem a rota em direção a Brasília, pois queria que o avião batesse contra o Palácio do Planalto. Conheça história da tentativa de atentado ao Palácio do Planalto De acordo com informações da época do atentado, Nonato havia perdido o emprego em uma construtora devido à crise econômica que o país enfrentava e acreditava que a culpa era do então presidente José Sarney (PMDB). Em uma entrevista ao g1, em 2011, Fernando Murilo disse que o sequestrador gritava: "Eu quero matar o Sarney. Quero jogar o avião no Planalto!". Morte do copiloto O piloto acionou o código de sequestro para o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta) de Brasília. Em seguida, o copiloto, Salvador, tentava atender o rádio, mas Nonato viu e o matou com um tiro nuca. Naquela época não havia aparelhos de raios-X e detectores de metal nos aeroportos, permitindo que Nonato entrasse armado no avião. Salvador Evangelista Arquivo pessoal Para salvar o voo, Fernando Murilo realizou algumas manobras ousadas para tentar desequilibrar o sequestrador, além de tentar convencer Nonato a pousar a aeronave, que estava com pouco combustível, em Goiânia. O piloto conseguiu executar uma queda em parafuso que desequilibrou o sequestrador e pôde pousar em Goiânia. A manobra funcionou por algum tempo, mas Nonato recuperou a consciência e voltou a fazer ameaças à tripulação. No local, houve negociação com as polícias Civil e Federal e, depois de horas, Nonato se rendeu, mas usou Fernando Murilo como escudo humano. Quando caminhava até a aeronave disponibilizada pela polícia, o sequestrador foi alvejado. Ele foi levado para o hospital, mas morreu alguns dias depois. História virou filme Wendy acompanhou do set de filmagem parte da produção e ficou surpresa com a reprodução exata do avião na época. "Resgatar algo que eu nunca imaginei que poderia ser resgatado. Aquelas poltronas, todo o serviço de bordo, das comissárias passando na cabine, foi maravilhoso", contou. A filha conta que sempre evitou o assunto, e que muitas vezes foi procurada de uma maneira invasiva. Porém, ela relata que desta vez, o diretor do filme Marcus Baldini a fez se sentir à vontade para falar sobre. "Foi impactante. Foi isso que permitiu que eu resgatasse coisas que eu jamais imaginei entrar", afirma. O ator César Mello, que interpreta Salvador, ligou para Wendy para conhecer um pouco da vida do personagem. Isso foi muito positivo para a filha. "A gente tem que lavar a ferida para ela cicatrizar direito. Não que aquela marca vá sumir, que a cicatriz vai desaparecer, mas expor e lavar te permite elaborar pouco melhor." Wendy ressalta que, mesmo que o sequestrador estivesse realizando um protesto, não lhe dava o direito de matar alguém. Para ela, o ato não tem desculpas. "Com todo o direito de protesto que alguém tenha e seu dever mesmo de dar voz à sociedade, você não pode levantar sua bandeira usando o mastro para bater na cabeça de outra pessoa. [...] Meu pai também era trabalhador. A gente não pode lutar por uma família destruindo outra." VÍDEOS: Mais assistidos g1 PR Leia mais notícias em g1 Paraná.

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