Do luxo às ruínas: conheça a história do Edifício São Pedro, que já foi considerado o 'Copacabana Palace cearense'


Edifício inaugurado na década de 1950 foi o primeiro da Praia de Iracema e iniciou atividade hoteleira na região. Prédio icônico na paisagem de Fortaleza tem risco de desabar há pelo menos 12 anos. Edifício São Pedro ajuda a contar a história de Fortaleza e segue sem destino definido Ainda é possível ler “Plaza Hotel” no que um dia foi fachada. Um muro está na frente dos comércios que existiam no térreo. Nas janelas, há vedações com tijolos, vidros quebrados ou até mesmo espécies de plantas que crescem livremente. A cada ano, os traços do abandono se acentuam no Edifício São Pedro, que já foi símbolo de esplendor na orla de Fortaleza. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp O prédio foi inaugurado em 1951, sendo o primeiro a ter mais de três andares na Praia de Iracema. Ele surgiu como Iracema Plaza Hotel, consolidando uma era de luxo e lazer à beira do mar para os boêmios e visitantes da capital cearense. Era o começo da ocupação hoteleira na praia, que até então abrigava casas de veraneio. O ambiente de festas e pompa continuou mesmo quando o prédio adotou o nome de Edifício São Pedro e passou a ser apenas residencial. Até que as condições estruturais trouxeram riscos aos moradores e transeuntes. Pela importância para a história e arquitetura da cidade, houve idas e vindas nas tentativas de tombamento. Houve também projetos de novos usos para o imóvel. Nada funcionou, e o destino do prédio continua indefinido. O ‘Copacabana Palace cearense’ O Iracema Plaza Hotel foi o primeiro da Praia de Iracema em uma região que ainda não era verticalizada Acervo dos Municípios Brasileiros/IBGE O Iracema Plaza Hotel funcionou em boa parte do térreo e ocupou o eixo central do Edifício São Pedro, com cômodos e acesso de frente para o mar. As entradas para a rua de trás e da lateral ficavam para o uso residencial. Além do hotel, que abrigou celebridades da época, como Wanderléa, Vanusa e outros artistas da Jovem Guarda, o lugar era badalado pelos eventos promovidos no salão de festas e pela movimentação do Restaurante Panela, que era aberto ao público e servia pratos da culinária internacional. LEIA TAMBÉM: Há 80 anos, diretor Orson Welles gravou filme no Brasil que nunca foi lançado; entenda Sítio histórico do último campo de concentração no Ceará resiste com as memórias dos retirantes da seca de 1932 Iphan recebe pedido de tombamento e Edifício São Pedro pode virar patrimônio federal No contexto de modernização das construções em Fortaleza, empreendida pelas elites locais, o prédio teve influências mediterrâneas e aliou conceitos da arquitetura moderna em alta na Europa. Uma provável inspiração para o São Pedro é o dos vilarejos brancos de Andaluzia, na Espanha, como aponta estudo arquitetônico submetido em processo de tombamento a nível municipal, em 2015. Seguindo estas tendências, o projeto do engenheiro Orlando Ariosto Luna Freire incorporou a livre locação de paredes e as fachadas que independem da sustentação do prédio, apostando também no melhor aproveitamento da luz natural. Ao todo, o prédio tinha oito pavimentos com paredes externas pintadas de branco, grandes janelas, balcões amplos e terraços com jardins. O prédio do Lord Hotel, no Centro de Fortaleza, foi obra financiada pelo mesmo empresário do Edifício São Pedro Saulo Roberto/SVM O jornalista e pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, conhecido como Nirez, recupera uma lenda que circulava na cidade sobre o Edifício São Pedro. “Corria um boato, que eu não sei se é verdadeiro, de que o prédio não estava terminado. O último andar estava por fazer porque o Pedro Philomeno Gomes, que era o dono do prédio e morava na Jacarecanga, sonhou que, no dia que terminasse aquele prédio, ele morreria. Então ele nunca terminou”, partilha Nirez. A obra foi uma dentre outras apostas do empresário e industrial Pedro Philomeno. Iniciando com obras para a Fábrica São José e seus operários, ele expandiu os negócios fundando a Imobiliária Pedro Philomeno Ltda. e inaugurando prédios espalhados por Fortaleza. Alguns exemplos são as vilas Francisco Sá e o edifício Dona Bela (anos 1940), além do Lord Hotel (foto acima), que foi inaugurado ao lado do Theatro José de Alencar em 1956. Com o São Pedro, veio a glória de um hotel que ficou conhecido como o “Copacabana Palace cearense”, em referência ao empreendimento da orla carioca. Rodeado inicialmente por coqueiros, o prédio permitia até mesmo contemplar a vista da Serra de Maranguape, que fica na Região Metropolitana. O destaque crescente da praia A antiga Beira Mar de Fortaleza era concentrada na região onde o Iracema Plaza foi construído. Arquivo Nirez Na década de 1950, o Iracema Plaza chegou à praia quando os hotéis estavam concentrados na região central. Um exemplo era o Hotel Excelsior, inaugurado em 1931 na Praça do Ferreira. Outro era o Hotel Bitu, próximo à Catedral de Fortaleza. O fluxo de pessoas consideradas ilustres e eventos sociais estava no Centro. Enquanto isso, a Praia de Iracema ainda não tinha despertado para o setor turístico. Em vez disso, o documento submetido para o processo de tombamento do Edifício São Pedro aponta a região como “o primeiro bairro de veraneio da cidade de Fortaleza”. Isso porque o costume, até então, era que as pessoas mais abastadas tivessem um imóvel na região para visitas pontuais à praia. Desde a década de 1950, o edifício tinha o uso dividido entre as atividades do hotel e apartamentos residenciais Arquivo Nirez Este perfil foi mudando com a chegada do Iracema Plaza, pois outros estabelecimentos comerciais começaram a se instalar na vizinhança depois da inauguração do hotel, como recorda o memorialista Nirez. “E o Centro da cidade, a partir de 1960, dez anos depois do Iracema [Plaza], começou a morrer. O cinema foi fechando, as casas comerciais noturnas começaram a fechar, algumas lojas fecharam e até hoje permanecem fechadas. De maneira que, com o advento de outros prédios na Praia de Iracema, com os outros hotéis, o fluxo da cidade nesse ambiente hoteleiro foi se transferindo gradativamente para a Praia de Iracema”, conta Nirez. Naqueles anos, o trecho da Praia de Iracema onde o hotel foi construído concentrava praticamente toda a atividade de quem queria ir à praia. Conforme Nirez, a antiga “Beira Mar” de Fortaleza ficava entre onde hoje estão a Igreja de São Pedro e a estátua da Iracema Guardiã. Aquele foi o primeiro quarteirão a ter residências na praia, recebendo visitantes ilustres mesmo no tempo das casas de veraneio. Um deles foi o cineasta Orson Welles, que chegou a Fortaleza em 1941. Conforme Nirez, o trecho de praia também foi moradia temporária para o arquiteto húngaro Emílio Hinko e para Carmen Costa, uma das primeiras cantoras negras a ter sucesso na era do rádio. Lembranças de uma era gloriosa Imagens de 2012 e 2023 mostram o desgaste crescente do Edifício São Pedro nos últimos anos. Initial plugin text O Edifício São Pedro era referência de luxo e boemia para os fortalezenses, tanto pela movimentação do hotel como pelo uso residencial. A proximidade com o mar e o clima festivo dos eventos sociais marcaram a memória de quem passou pelo imóvel. A aposentada Josefa Oliveira, de 64 anos, tem lembranças de dois períodos em que foi moradora do prédio. Primeiro, quando era recém-casada e se mudou para um apartamento do quinto andar, em 1986. “O hotel ainda funcionava, eu descia para o restaurante Panela à noite. Era um apartamento pequeno que ficava bem em cima do hotel, porque o miolo do prédio era o hotel, e as laterais eram os apartamentos”, detalha Josefa. Imagens do interior do hotel no documento de solicitação de tombamento do prédio, submetido em 2015 Reprodução Ela frequentava as constantes festas promovidas pelos moradores. Dentre eles, estava Maurício Accioly, que era tio do então marido de Josefa. Ela aponta que Maurício tinha fama por ser anfitrião de celebrações animadas. “As festas dos moradores acabavam sempre tendo conexão com o hotel. Alguns acabavam dormindo no hotel. Os garçons do hotel subiam levando comida, pois os convidados pediam. Era muito comum ver os garçons arrumados e subindo para os apartamentos”, recorda Josefa. No prédio, não era raro encontrar as figuras que sempre estampavam as colunas sociais. Ou os boêmios queridos da região, como o Aurílio Gurgel, que ficou conhecido como Mincharia e acabou inspirando o nome de um bar em sua homenagem depois de morrer. Na primeira vez em que deixou o São Pedro, em 1988, Josefa queria se afastar justamente da agitação que o prédio trazia. Como recorda, ela e o ex-marido adoravam o ritmo boêmio. Mas precisaram pensar na criação dos filhos que chegaram e se mudaram para uma casa no Bairro de Fátima. As memórias desse período no imóvel trazem também algumas cenas de medo. A aposentada recorda de batidas policiais em busca de pessoas influentes envolvidas em contrabando e outras irregularidades. Assim, buscar tranquilidade em outro lar fez sentido para a família dela. Em rota de declínio Nos anos 2000, o Edifício São Pedro ainda tinha moradores e comércios funcionando no térreo. Google Maps/Reprodução O retorno de Josefa ao edifício foi em 1994. A circunstância foi bem diferente: a família estava em grave dificuldade financeira e ficou morando de favor no apartamento de Maurício, que tinha se mudado para Quixadá. O Iracema Plaza Hotel havia deixado de funcionar na década anterior. Além dos apartamentos residenciais, a atividade no edifício era de comércios no térreo, como cabeleireiro, loja de artesanato e lan house. Quem também resgata as memórias desse período é a filha mais velha de Josefa, a professora e antropóloga Izabel Accioly. Ela tinha seis anos quando chegou ao Edifício São Pedro. Por mais que o tempo fosse de aperto financeiro na família, estar perto do mar era uma alegria para ela e os dois irmãos mais novos. “Eu me lembro bastante de ser o nosso lazer ir pra praia no dia de semana no final da tarde ou no domingo enquanto a minha mãe fazia o almoço. A gente ia só com a roupa do corpo e subia pelas escadas só de biquíni, cheios de areia. E quando a gente subia, a gente ia direto pra varanda, que era gigante, pegava uma mangueira e tomava banho na varanda mesmo”, recorda Izabel. No quarto andar, o apartamento da infância de Izabel tinha cômodos amplos, piso de taco de madeira e até mesmo um quarto de empregada, que ela costuma chamar de “senzala moderna”. O banheiro também tinha características dos prédios antigos, como o bidê e uma grande banheira. No edifício, nem todas as unidades tinham a mesma planta, tendo kitnets e também apartamentos bem maiores. Izabel não costumava explorar os outros espaços do edifício, mas os irmãos mais novos gostavam de descobrir os locais que haviam sido do Iracema Plaza, como o enorme salão de festas em um dos pavimentos superiores. “Eu morei lá de 1994 até por volta de 2002. Era muito bonito lá. O prédio por fora já tinha uma aparência um pouco degradada. Não como está hoje, mas a pintura não existia mais, já era uma aparência meio esquisita. Mas a parte interna e os apartamentos eram super bem cuidados”, detalha a antropóloga. No entanto, alguns sinais apontavam que o prédio estava em declínio. Segundo Izabel, a água que vinha da tubulação antiga não tinha qualidade, e o abastecimento tinha muitas falhas. “Eu lembro muito da gente, ainda criança, indo buscar água no chafariz público que tinha perto”, conta. Nesta segunda temporada como moradora do São Pedro, Josefa presenciou a revitalização na Praia de Iracema com a reforma da Ponte dos Ingleses como lugar de lazer e turismo. No entanto, a região voltou a passar por anos de descaso e abandono, o que impactou na decisão de sair de lá novamente. Além das infiltrações e do desgaste crescente das estruturas do prédio, a aposentada conta que a sensação de insegurança pesou bastante. Como lembra, as ruas do entorno passaram a ter pontos de prostituição e confusões durante a noite. “A gente não conseguia mais ficar, meus filhos ficavam muito expostos”, resume. Foi por volta do ano de 2003 que a família de Josefa teve uma melhora financeira e conseguiu sustentar uma moradia no bairro Joaquim Távora. Um prédio de futuro incerto Em projeto apresentado em 2015, um novo hotel com mais 23 andares seria construído no centro do Edifício São Pedro Reprodução Quando gravou o documentário “Lastro - Memórias do Edifício São Pedro”, a motion designer Rebeca Prado, de 32 anos, encontrou várias pessoas que compartilharam lembranças sobre o lugar. Dentre elas, uma das moradoras que ainda resistiam no prédio, ressaltando que pagava caro pelo aluguel e que estava em situação regular. O ano era 2014. E o cenário já era de incertezas quanto ao futuro do imóvel. Um primeiro processo de tombamento do prédio a nível municipal já existia. No ano seguinte às gravações, vieram a desocupação do prédio e um longo período de idas e vindas nas tentativas de preservar ou transformar o lugar. Confira a linha do tempo das decisões sobre o destino do edifício: 2006: Por meio de decreto, a Prefeitura de Fortaleza tombou o edifício provisoriamente. Na prática, Município e proprietários ficaram obrigados a manter o estado de conservação do prédio, ficando vedadas a demolição, destruição ou mutilação. 2012: Laudo pericial solicitado pela Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) e feito pela Comissão de Perícias e Avaliações da gestão municipal avaliou as condições do prédio. No documento, o estado geral de manutenção foi considerado crítico, apresentando alto risco e necessidade de intervenções de curto prazo. O laudo também apontou “completo estado de abandono por parte do proprietário” e “ocupação irregular existente”. 2012: Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Ceará (Crea-CE) recomendou o escoramento e isolamento do entorno. 2015: Representando os proprietários do edifício, a Philomeno Imóveis e Participações S/A entrou com pedido urgente de tombamento na esfera municipal. O documento argumenta que o prédio poderia desabar a qualquer momento. No processo, foi anexado um projeto de requalificação do imóvel. O projeto previa um conceito inspirado em prédios como a Torre Hearst, em Nova York, que ergueu uma torre no interior do antigo prédio International Magazine (1927) e preservou a fachada da estrutura original na base do projeto. O projeto submetido para o São Pedro previa manter uma réplica do prédio original na base e adicionar, no centro dele, uma torre com hotel com mais 23 andares acima da estrutura do edifício atual. 2015: O tombamento definitivo do Edifício São Pedro foi aprovado em decisão unânime do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural de Fortaleza. A decisão definitiva ficaria a cargo do prefeito. 2016: A Comissão Permanente de Avaliação do Plano Diretor aprovou a Análise de Orientação Prévia para o empreendimento que previa as atividades de hotelaria, comércio/serviços e residência em novo projeto para o Edifício São Pedro. 2017: O Ministério Público do Estado do Ceará instaurou Inquérito Civil Público após denúncia para obter informações sobre projetos de reforma ou demolição do edifício. 2018: Ministério Público ajuizou ação civil pública e recebeu da Justiça decisão favorável para que a Prefeitura fosse impedida de conceder permissão de demolição, destruição ou mutilação da estrutura do prédio. 2021: O tombamento definitivo a nível municipal foi desaprovado pelo prefeito de Fortaleza, José Sarto. A decisão municipal apontou inviabilidade técnica e econômica para o reparo do prédio, além da incompatibilidade com a preservação do bem por implicar, necessariamente, mutilação e destruição da estrutura do imóvel. 2021: Processo de tombamento a nível federal foi recebido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A solicitação foi feita pelo deputado federal Capitão Wagner (Pros) um dia após a decisão do prefeito José Sarto. 2021: A Justiça atendeu pedido do Ministério Público para que o proprietário do prédio providencie vigilância diuturna do imóvel. A ideia era coibir furtos, invasões, depredações ou quaisquer atos lesivos ao prédio. Na decisão, a Prefeitura também deveria intensificar a fiscalização no entorno para coibir atos de vandalismo. 2022: O Governo do Ceará anunciou que iria desapropriar o imóvel para que ele abrigasse o Distrito Criativo, um projeto que abrigaria artesanato, artes visuais, design, gastronomia e cultura popular, dentre outras atividades. O anúncio veio após publicação de decreto declarando a utilidade pública do local. Para execução da desapropriação, o Estado precisaria fazer tratativas com os proprietários do edifício. As reuniões foram realizadas, mas sem que as partes chegassem a um acordo. 2023: O Iphan rejeitou o pedido de tombamento federal do edifício. A justificativa foi a ausência de elementos que comprovassem a representatividade nacional do prédio para a “memória, a identidade, a história e a formação da sociedade brasileira”. 2023: O governador Elmano de Freitas cancelou a validade dos decretos que consideravam a utilidade pública do prédio para fins de desapropriação. O texto da decisão levou em conta a posição do Iphan sobre a ausência de interesse histórico nacional do prédio. Com este ato, o destino do edifício voltou a ficar nas mãos dos proprietários. 2023: Em entrevista ao jornal Diário do Nordeste, os proprietários do prédio afirmaram que planejavam retomar o projeto apresentado à Prefeitura em 2015, com a construção da torre de cerca de 97 metros no centro do edifício. O desgaste do edifício se intensificou enquanto os impasses se acumulavam. Nos últimos anos, ele foi palco de ocorrências diversas, como quando uma mulher morreu ao cair do prédio em 2021, quando entulhos levaram a um princípio de incêndio em 2022 e um homem tentou estuprar uma criança no prédio em 2023. O g1 fez contato com Francisco Philomeno Júnior, um dos proprietários, para saber qual o projeto atual para o edifício. O empresário respondeu que poderá dar retorno à reportagem quando voltar do período de 10 dias de viagem. Melancolia e fascínio O Edifício São Pedro esteve no centro de debates e decisões que tentaram o tombamento do imóvel Natinho Rodrigues/SVM Em meio aos novos prédios da Praia de Iracema, o Edifício São Pedro ainda desperta a curiosidade de quem passa pela região. Há dez anos, a vontade de descobrir a história do lugar motivou Rebeca Prado a fazer o documentário como trabalho de conclusão do curso de Publicidade. Em suas explorações, ela conseguiu encontrar pessoas que moraram nos apartamentos residenciais ou trabalharam no hotel e nos comércios do térreo. Segundo conta, o zelador da época não deixava que ela entrasse. Por isso, ela conheceu o interior do edifício apenas quando entrevistou uma moradora que ainda estava por lá pagando aluguel no último ano antes da desocupação. “Eu só consegui entrar nessa parte, em uma entrada que ficava na lateral. Ele é um prédio cheio de labirintos. Não é entrando por um lugar que você vai poder ter acesso ao prédio todo”, detalha Rebeca. Interessada no tema de lugares abandonados, ela lamenta que ninguém tenha encontrado solução para o futuro do prédio. E comenta que o descaso com a memória e a arquitetura da cidade não é um episódio isolado. “É uma das coisas que me entristecem, por não preservarmos a história em Fortaleza. E eu sempre tinha esse sentimento com o prédio: de olhar, de ficar intrigada, pensar no que foi que aconteceu pra ele ficar nesse estado, nas vidas e histórias que passaram por ali”, partilha. Em relação ao São Pedro, a professora Izabel Accioly compartilha o sentimento de tristeza por ver que o prédio foi levado a um estado irrecuperável. “Lá por 2002, quando o prédio já estava externamente mal cuidado, mas do lado interno tava bem, poderia ter sido feita alguma coisa. Mas não foi feito, não sei por quais motivos. Eu queria muito que ele fosse tombado, mas não sei se ainda há viabilidade. Eu sinto muito porque eu não queria que o Edifício São Pedro, que tem uma história tão marcante pra nossa cidade, se torne apenas mais um prédio espelhado gigantesco de frente pro mar”, lamenta a antropóloga. Como comenta, a concentração de empreendimentos voltados para as elites confirmam um esvaziamento das memórias na Praia de Iracema, em uma lógica que afasta antigos moradores e comunidades tradicionais das suas raízes. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

source https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2024/03/03/do-luxo-as-ruinas-conheca-a-historia-do-edificio-sao-pedro-que-ja-foi-considerado-o-copacabana-palace-cearense.ghtml
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