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Samba toma conta do Marco Zero do Recife e escolas locais reclamam de falta de apoio e recursos: 'Muito difícil fazer samba na terra do frevo'


Persistindo na base do trabalho comunitário e da dedicação dos integrantes, escolas do estado têm fechado as portas. Em 2024, a Preto Velho, de Olinda, com 50 anos de tradição, não vai desfilar. Apresentação da Escola Gigante do Samba no palco Marco Zero, no Recife Antigo Quem disse que o Recife não dá samba? O domingo (11) de carnaval levou dois blocos e cinco escolas de samba ao palco Marco Zero, no Recife Antigo, em um dia dedicado exclusivamente ao gênero. Mestres e presidentes das agremiações aproveitaram a reunião e relataram falta de apoio financeiro do poder público, o que tem levado escolas a fecharem as portas. Uma delas é a Escola de Samba Preto Velho, única atuante em Olinda, e que em dezembro completa 50 anos de existência. Em 2024, a Preto Velho não vai desfilar na avenida. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PE no WhatsApp. “Por mais que exista um direcionamento para o frevo no estado, um dia como esse representa muito para o povo do samba. Ele precisa acontecer sempre, não apenas no carnaval. O Preto Velho é um quilombo do século 21. Estamos vivos, resistindo, ativos, atuantes, porque não dá para desistir. Os meus lá atrás persistiram, e outros também vão lutar. O samba é vida, é arte, é axé”, disse Daniel Dias, 46 anos, bailarino, pedagogo e presidente da escola. Em Pernambuco, o samba tem um longo histórico de marginalização. Na década de 1960, Gilberto Freyre, publicou o manifesto denominado “Recifense sim, Subcarioca não”. À época, o sociólogo comparou os sambistas locais a “traidores da terra”. Ele temia que o carnaval “genuinamente pernambucano” perdesse suas características originais e ficasse parecido com o do Rio de Janeiro. Décadas depois, ainda lutando por reconhecimento, o samba pernambucano vai sobrevivendo graças aos fortes laços comunitários. A Pérola do Samba, do Alto José do Pinho, na Zona Norte do Recife, vivencia essa realidade. “A Pérola é uma escola de família onde cabe negro, branco, mulheres, LGBTs e pessoas de todas as idades. A gente trabalha e luta muito para não deixar o samba morrer. Não precisa existir resistência, só existência. Mas, por enquanto, a gente está resistindo. Aqui, somos todos voluntários. Fazemos porque gostamos”, disse o mestre Tony, mestre de bateria da agremiação e profissional da segurança. Tony disse que carrega a responsabilidade dos que vieram antes dele e reforça a importância de persistir. Até mesmo a Gigante do Samba, maior campeã do carnaval do Recife, passa sufoco para colocar o desfile na rua. Em 2023, a escola de Água Fria, na Zona Norte da cidade, celebrou seus 80 anos de existência. Integrantes da Escola Gigante do Samba, do bairro de Água Fria, no Recife Victor Moura/g1 “Muito difícil fazer samba na terra do frevo. Nossos dirigentes, nossas coirmãs, estão sempre buscando recursos. Mas a prefeitura um dia vai cair em si e ajudar todas as escolas de samba. Gigante, assim como as outras, só resiste por conta da comunidade. Na periferia, o pessoal nos abraça”, disse mestre Damião. Quando não está junto aos ritmistas, ele trabalha como autônomo. Outro problema relatado pela escola é a falta de uma passarela adequada para os desfiles. Em 2023, as agremiações desfilaram na Rua João Lira, no bairro de Santo Amaro, no Centro do Recife. Porém, após criticas, voltaram à Avenida Nossa Senhora do Carmo, no bairro de Santo Antônio. “Para mim, não ficou diferente, não. A passarela continua estreita. Mas a gente vai na força, na luta, na raça”, relatou Damião. Escolas do Rio de Janeiro já passaram pela mesma situação A dura realidade vivenciada pelas escolas locais se assemelha à vivida por agremiações cariocas, quando ainda não existia apoio e investimento. É o que apontou o mestre de bateria da Unidos de Vila Isabel, Macaco Branco, que esteve no Recife neste domingo (11) para acompanhar o show da cantora Mart'ália no palco Marco Zero. “Há um tempo atrás, no Rio, o samba também era marginalizado, visto como ato de vadiagem, e hoje é disseminado no mundo todo”, contou Macaco Branco. Mestre Macaco Branco, da bateria da Unidos de Vila Isabel, esteve no Recife acompanhando a cantora Mart'nália Victor Moura/g1 Ao contrário dos mestres de bateria pernambucanos, Macaco Branco tira o seu sustento integral da música. Com as bases consolidadas, sua escola, a Vila Isabel, consegue fazer diversos projetos sociais no bairro, como aulas de percusão, samba no pé, mestre-sala e porta-bandeira, chapelaria e cavaquinho. “Tudo isso é uma forma de tirar as crianças de periferia dos caminhos negativos. O samba salva vidas, é um gênero que vem de ancestrais africanos, que tem mais de 100 anos documentados”, relata. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

source https://g1.globo.com/pe/pernambuco/carnaval/2024/noticia/2024/02/12/samba-toma-conta-do-marco-zero-do-recife-e-escolas-locais-reclamam-de-falta-de-apoio-e-recursos-muito-dificil-fazer-samba-na-terra-do-frevo.ghtml
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