Em plena atividade, bailarina completa 80 anos e destaca: 'da arte também vem a educação, o ballet é para todos'


Vera Bublitz celebra oito décadas de vida e revela que um de seus sonhos é a existência de mais incentivos à cultura brasileira. "Desejo que um país como o nosso se abra e veja que da arte também vem a educação", diz. Bailarina e empresária Vera Bublitz celebra 80 anos Raquel Rangel/Divulgação Vera Bublitz, um dos nomes do ballet do Rio Grande do Sul, celebra 80 anos nesta segunda-feira (19) em plena atividade. Ao rememorar a trajetória pessoal na dança, a bailarina e empresária revela que um de seus sonhos é a existência de mais incentivos à cultura no Brasil. "Eu desejo que um país como o nosso se abra e veja que da arte também vem a educação, o ballet é para todos, mas exige disciplina e investimento". 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp O ballet representa uma forma de expressão e de domínio do corpo como um todo, salienta a empresária. A visão de Vera sobre a dança tem um quê filosófico. Para ela, o que faz o ballet perdurar é a possibilidade de ele instigar a percepção do ser humano sobre si mesmo. "O ballet é eterno porque é arte, ele é capaz de transmitir algo para o humano que é profundo. Faz o corpo aprender o próprio ritmo. Eu penso que a sala de aula é como um tempo e cada aluno e aluna um mundo. A partir do encontro com o próprio corpo, dominando ritmos, os alunos se percebem e se entendem", reflete. Embora a realidade do ballet exija dos bailarinos um modelo de corpo esguio, Vera acredita na dança ser um espaço de acolhimento, independente da forma física. No entanto, em sua visão, diferentes corpos têm diferentes desafios. "Qualquer um pode dançar. Penso que não é uma questão estética, mas de talento e virtude. O ballet exige do corpo certa resistência, força e delicadeza. É preciso pensar no corpo como um instrumento e aonde se quer chegar com ele", menciona. Pandemia e tecnologia Bailarina Isabela Azevedo em registro de aula de 2022 Bublitz Produções/Reprodução Nesses 58 anos de escola, o Ballet Vera Bublitz vivenciou momentos célebres, participando de festivais, campeonatos e premiações nacional e internacionais. Além disso, na instituição passaram gerações diversas de bailarinos. Durante o período mais grave da pandemia, a escola viu as salas de dança ficarem vazias. Foi preciso se adaptar e compreender o momento posterior ao isolamento. Administrando duas escolas de ballet ao lado da filha, Carlla Bublitz, a empresária notou uma mudança no dia a dia pós-pandemia. Vera observou que, apesar de o número de alunos ter reduzido, a qualidade daqueles interessados na atividade aumentou. "O mundo girou. O jovem se conectou com o mundo nesse período. Nos vídeos e aplicativos eles viram como bailarinos famosos dançam. Então, eles chegam querendo dançar como se dança na Rússia, na França, na Itália. Isso ocorreu demais. Esse interesse, a disciplina e o foco nos levou a ganhar medalhas", explica a empresária. Inclusão A inclusão a partir da dança é um aspecto relevante para Vera, que anos atrás liderou um projeto social associado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, focado em levar para o ballet crianças e jovens de abrigos públicos de Porto Alegre. Ela relembra que os integrantes da ação chegaram a competir e se apresentar em diversos estados representando a escola. No entanto, a iniciativa, conta a bailarina, deu origem a cobranças econômicas e sociais que sozinha, sem auxílio do governo ou de patrocinadores, ela não daria conta. "Um projeto assim não é fácil. Fui cobrada para dar emprego e posicionar esse jovem no mercado, mas isso depende de dinheiro, de incentivo à cultura e outras tantas coisas. Eu fundei de forma inocente essa ação. Na época, não me dei conta de que também precisaria trabalhar, por exemplo, o psicológico", recorda. Apesar dos desafios, ela não descarta desenvolver um novo projeto destinado a quem vive de forma precária e tem o sonho de dançar. "Esse ano, eu quero investir no benefício e talento dessas crianças". Aos próximos anos Bailarina da escola Vera Bublitz dança com Albert Evans do New York City Ballet Divulgação Manter-se entre as renomadas escolas de ballet clássico do país é um desafio constante, mas Vera Bublitz sente-se orgulhosa da trajetória. "Eu acho que meus 80 anos é uma data vitoriosa. Estou vendo a vida acontecer, sonhando, trabalhando, dirigindo meus alunos. Estou muito feliz e minha máquina é meu corpo". Sem perder o foco na tradição e na metodologia de ensino adaptada da Rússia, além do ballet clássico, a escola ensina hip-hop, acrodance (movimentos acrobáticos), sapateado, danças urbanas e preparação para musicais. Sonhando com mais investimento na cultura, Vera deseja que nos próximos anos possa presenciar a criação de uma grande "Companhia de Ballet Clássico em Porto Alegre", mas, para que esse sonho saia do travesseiro, segundo ela, ainda é preciso mudar a mentalidade do país em relação à arte. Quem é Vera Bublitz Carlla Bublitz, Valery Collin, bailarino francês, e Vera Bublitz em encontro Divulgação/Acervo Pessoal Nascida em 19 de fevereiro de 1944, em São Francisco do Sul, em Santa Catarina, Vera Bublitz encontrou a dança muito cedo. Aos 5 anos, começou as aulas de ballet com a russa Albertina Saikowska, uma mestre da dança que seguia a metodologia da lendária professora russa Agripina Vaganova. Essa metodologia inspirou Vera e a filha Carlla Bublitz a criarem o próprio método de ensino, que estimula o desenvolvimento da dança desde a infância, acompanhando a evolução do aprendizado das crianças. Ela estudou dança até os 16 anos, quando se casou com o ortodontista gaúcho Carlos Bublitz. Foram então morar em Ibirubá, no interior do Rio Grande do Sul. Em 1966, fundou sua primeira escola de ballet na cidade de Cruz Alta. Com uma rotina ativa, ela também dava aulas em Ibirubá, Panambi e em Ijuí. O encanto pela arte foi passado entre gerações e, hoje, a família – filhos e netos – atuam nos empreendimentos Galeria Bublitz e Ballet Vera Bubliz, ambos em Porto Alegre. VÍDEOS: Tudo sobre o RS

source https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/02/18/em-plena-atividade-bailarina-completa-80-anos-e-destaca-da-arte-tambem-vem-a-educacao-o-ballet-e-para-todos.ghtml
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