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Abelhas fazem asas de 'ventilador' para refrescar colmeia em dias de calor extremo: VÍDEO


Tempo quente é extremamente perigoso para algumas espécies, que precisam proteger as crias quando as temperaturas sobem demais. Em alguns casos, operárias 'mudam o cargo' dentro da colônia para acelerar processo de refrigeração. Abelha da espécie Melipona quadrifasciata anthidioides Cristiano Menezes/InfoA.B.E.L.H.A. A quinta onda de calor registrada no ano de 2023 acendeu, mais uma vez, o alerta em criadores de abelhas na região de Ribeirão Preto (SP). Siga o canal g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Isso porque o tempo quente é extremamente perigoso para algumas espécies, e quando os termômetros sobem demais, podem destruir uma colônia inteira. Assim como os humanos, que têm temperatura média corporal de 37ºC, as abelhas também regulam a temperatura do corpo (que pode variar de 28ºC para 36ºC, dependendo da espécie) e, de acordo com especialistas ouvidos pelo g1, qualquer sol em excesso vai afetá-las drasticamente. É nessa hora que elas precisam trabalhar em dobro para se refrescar e são as asas, que funcionam como um ventilador natural, que ajudam no processo de resfriamento da colmeia. De acordo com Michael Hrncir, professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Comitê Científico da Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.), esta ação é extremamente necessária, porque a cria é a parte mais importante de uma colônia. Startup em Ribeirão Preto (SP) busca melhorar produtividade das lavouras com polinização das abelhas Agrobee/Divulgação Assim, o ninho tem de estar sempre protegido. E não apenas de temperaturas altíssimas, mas das mais baixas também. "A parte mais importante da colônia é a cria, porque sem cria, se a cria morrer, a colônia não vai pra frente, porque todas as abelhas futuras vão morrer. Então é importante manter essa cria em uma temperatura adequada". LEIA TAMBÉM Nova onda de calor deve deixar temperaturas 5ºC acima da média em Ribeirão Preto Onda de calor: o que é e por que está cada vez mais tão frequente? Qual época do ano é mais quente: primavera ou verão? Especialistas ouvidos pelo g1 explicam 2023 deve ser o ano mais quente em 125 mil anos, diz observatório europeu Hrncir explica que as abelhas sempre vão reagir a aumentos de temperatura para proteger única e exclusivamente parte do grupo que nem nasceu ainda. "Se lá fora aquece o ambiente, se a abelha não fizer nada, o ninho também vai aquecer. Porque o ninho está dentro de uma cavidade e dentro da cavidade também irá aquecer, talvez um pouco mais lento do que o ambiente, mas em algum ponto vai aquecer. As abelhas vão reagir para esse aumento da temperatura, e vão tentar reduzir essa temperatura para chegar de novo nesse nível interno ideal para o desenvolvimento da colônia". Veja abaixo a pesquisadora Maria Teresa Lopes, da Embrapa Meio-Norte, explicando como as temperaturas altas podem afetar a colônia: Pesquisadora explica como altas temperaturas afetam desenvolvimento das colônias Funções na colônia mudam para acelerar resfriamento Pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e apicultor, Guilherme Souza explica que, dependendo de quão quente está o tempo, o resfriamento da colmeia precisa ser mais rápido e aí as abelhas, que tem funções extremamente definidas dentro da colônia, podem 'mudar o cargo' para ajudar no processo. "Dependendo do nível de estresse térmico, todo mundo vai parar as atividades e se concentrar, exclusivamente, na redução da temperatura. Geralmente, quem faz isso são as campeiras e as abelhas que recebem o alimento das campeiras, que são as nutrizes. Elas vão fazer esse trabalho de resfriar. Só que, se o estresse térmico aumenta demais, as abelhas vão parar as outras atividades da colônia e todo mundo se concentra nisso". Além das abelhas-campeiras (que saem a campo para buscar recursos para a colmeia) e das abelhas-nutrizes (que são responsáveis por alimentar as crias e a rainha), uma colônia também conta com: abelhas-faxineiras abelhas-construtoras abelhas-guardiãs (que vão proteger a colmeia) Todas elas são abelhas-operárias, ou seja, que trabalham para manter a colmeia ativa. A abelha-rainha tem como função a postura de ovos e a garantia da ordem social e os zangões têm a única função de fecundar a rainha. Veja abaixo como é a estrutura de uma colmeia e a importância da proteção ao ninho: Pesquisadora explica estrutura da colmeia e importância da proteção ao ninho Como é o processo de refrigeração Presidente da Associação dos Criadores de Abelhas do Nordeste Paulista (Acanp), Ricardo Iara Carolli explica que a temperatura do ninho é parâmetro decisivo para a sobrevivência da colônia. Em uma região quente, como a de Ribeirão Preto, é preciso estar atento a qualquer alteração provocada pelas ondas de calor. "O calor fora do normal pode prejudicar e muito uma colônia de abelha, ainda mais a nossa região, que está muito quente, e o pessoal costuma criar muitas abelhas melíponas, que é uma espécie que gosta de uma temperatura um pouco mais amena". Abelha-europeia Mário Gomes O ideal, segundo Maria Teresa, é que as abelhas mantenham a temperatura dentro da colmeia em até 36ºC. Mais que isso, as crias podem sofrer deformações durante o desenvolvimento e até mesmo morrer. Para resfriar o ninho, Guilherme Souza explica, as abelhas batem as asas, principalmente, na entrada da colmeia. A corrente de ar que se forma ajuda a baixar a temperatura. Dependendo da espécie, uma abelha consegue bater as asas até 180 vezes por segundo, criando uma corrente de ar que pode chegar a uma velocidade de 25 km/h. "Elas têm vários mecanismos para driblar o calor. Um desses é a ventilação, que é um mecanismo bem simples, é bater as asas tanto na entrada da colmeia, quanto do lado de dentro e, com isso, promovem uma ventilação", diz o pesquisador da Unesp. Veja abaixo como abelhas ventilam colmeia quando o tempo está quente: Pesquisadora explica como abelhas ventilam colmeia quando o tempo está quente Associado à Acanp, Antônio Carlos Pereira Júnior, que cria abelhas Melipona quadrifasciata, enviou ao g1 um vídeo do momento que elas se unem na entrada da colmeia para fazer o processo de ventilação: Algumas espécies de abelhas fazem das asas 'ventiladores' para resfriar a colmeia Ar-condicionado na colmeia Além das asas funcionarem como ventilador, as abelhas também podem criar uma espécie de ar-condicionado ao levar água para dentro da colmeia. "Elas trazem água de rios e depositam essa água dentro da colmeia, pulverizando essa água, como se fosse um ar-condicionado, buscando resfriar a colônia", diz Souza. Outra ferramenta para se proteger do calor, conta o pesquisador, é fazer um escudo nas áreas mais quentes da colmeia. "Em um dia de muito calor, bate sol especificamente de um dos lados [da colmeia], ali vai estar mais quente. As abelhas vão posicionar o corpo delas, fazendo um bloqueio para esse lado de maior calor, vão acumular a temperatura do calor no próprio corpo e vão mudar de lugar dissipando esse calor. Também é uma estratégia que elas utilizam". As abelhas africanizadas foram criadas a partir do cruzamento entre as abelhas africanas e europeias Getty Images Como o criador pode ajudar Todo o esforço que a colônia faz para resfriar a colmeia, muitas vezes, é mesmo suficiente. Mas criadores também podem 'facilitar' a vida das abelhas. Carolli explica que, no caso de abelhas nativas -- bastante utilizadas na meliponicultura --, o ideal é se certificar de que a caixa onde elas ficarão seja colocada em um lugar sombreado e mais fresco. "E o meliponicultor precisa tomar cuidado, porque tem épocas do ano que o sol muda de posição e pode bater diretamente na caixa. Se ficar muito tempo batendo ali, pode prejudicar a termorregulação delas e elas não conseguirem essa termorregulação". Colmeia de abelhas sem ferrão Projeto Saúde e Alegria/Divulgação A espessura da caixa, ele explica, também é importante. "Para nossa região aqui, a espessura da madeira é acima de três centímetros. E nunca usar uma madeira muito densa. O pessoal, às vezes, quer usar madeira de lei porque é mais mais bonita, mas para a colônia acaba sendo mais prejudicial, porque absorve muito calor. Na hora de eliminar esse calor, ela elimina mais vagarosamente". O ideal, sugere Carolli, é utilizar eucalipto, bastante comum na região de Ribeirão Preto. "O eucalipto rosa é uma madeira de densidade muito boa e é ecologicamente correta". Comportamento é observado há, pelo menos, 80 anos O comportamento das abelhas durante as temperaturas mais quentes não é algo novo na literatura. Hrncir conta que um experimento com Apis melliferas em 1940 já mostrava a forma que elas lidavam com o calor. Isso tudo, antes mesmo do mundo superaquecer. "Eles [os pesquisadores] aumentaram a temperatura dentro das colônias e observaram duas coisas. Por um lado, o aumento dessas abelhas, que ficam batendo as asas, entre aspas ventilando, na entrada da colônia. Então, na entrada da colônia se formam camadas de operárias e essas operárias começam a bater as asas". A segunda observação, conta o pesquisador, foi que, quando aumenta a temperatura, as abelhas começam a coletar água e depositá-la nos favos da colônia. "Quando essa água evapora, leva [embora] uma parte desse calor do favo com o vapor, então resfria esse favo. Igual quando a gente sai da água, o vapor pode evaporar e esfria nosso corpo, a gente sente frio quando a gente sai da água, mesmo quando está calor lá fora". Calor afeta espécies de maneira diferente O calor afeta muitas espécies de abelhas, das sociais (que são as abelhas sem ferrão e vivem em colônias) às solitárias (que vivem sozinhas com a cria). Estas últimas, por exemplo, sentem o impacto das temperaturas mais quentes nas flores, como explica Denise Alves, pesquisadora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP em Piracicaba. "Quando a gente pensa em aquecimento, a abelha solitária não tem esses mecanismos ativos de resfriar o ninho, até porque é só ela e a cria. E a cria está ali em fases imaturas, então é ovo, larva e pupa. O calor acaba impactando nas plantas que elas visitam". Abelha solitária (Xylocopa frontalis) visitando flor da castanheira-do-brasil Márcia Maués/Arquivo Pessoal Denise explica que, quanto maior for a temperatura, o ciclo de vida de uma planta pode ser adiantado e, assim, na época que a abelha solitária precisa buscar por comida, pode acabar não encontrando. "Como abelhas solitárias têm um ciclo de vida muito curto, dependem às vezes de uma espécie de planta ou pouquíssimas espécies de planta, se essas espécies antecedem seu ciclo de vida, vai haver um descompasso entre o florescimento da planta e a época que aquela abelha vai pro campo para coletar alimento. Ela não vai ter o alimento necessário por visitarem poucas espécies de plantas". Existem 20 mil espécies de abelha no mundo e apenas 10% delas ocorrem no Brasil. Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

source https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2023/12/21/abelhas-fazem-asas-de-ventilador-para-refrescar-colmeia-em-dias-de-calor-extremo-video.ghtml
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