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Porta-bandeira histórica fala sobre ter que abrir a bolsa em aeroporto: 'Só pode ser porque sou negra'


Aos 85 anos, Vilma Nascimento estava em loja no aeroporto e foi obrigada a tirar pertences da bolsa após acusação de furto. Dufry pediu desculpas e disse que a fiscal de segurança foi afastada. Família da ex-porta-bandeira Vilma Nascimento acusa funcionário de loja de racismo A loja onde a histórica porta-bandeira da Portela Vilma Nascimento teve que tirar os pertences da bolsa para provar não ter furtado afastou a fiscal de segurança que realizou a abordagem. O caso foi na terça-feira (23), na loja Dufry do Aeroporto de Brasília, e foi revelado nesta quinta após postagens da família. "Eu não roubei nada. Só pode ser porque sou negra. Eu acho isso um absurdo", disse Vilma à TV Globo. Conhecida como Cisne da Passarela – por seu bailado suave e elegante –, Vilma foi a maior porta-bandeira da história da Portela, tendo estreado com apenas 13 anos. Aos 85 anos, havia ido a Brasília para ser homenageada na Câmara dos Deputados e inaugurar uma exposição dedicada a ela, no Dia da Consciência Negra, na segunda (20). "Eu, negra, estar la no Congresso,os deputados todos lá me aplaudindo, vindo falar comigo, me beijando, me agradecendo por eu estar lá. Foi lindo mesmo. E depois eu passar por essa vergonha no aeroporto." Vilma Nascimento Lula Marques/Agência Brasil Entenda como foi a abordagem Segundo parentes, ela estava à espera do voo na companhia da filha Danielle Nascimento quando decidiu comprar um refrigerante na loja Duty Free Shop. Viu perfumes, saiu da loja sem comprar e, momentos depois, retornou para, então, comprar a bebida. Na volta, foi abordada por uma segurança, que teria dito que precisava ver a bolsa dela em um lugar reservado. A filha já havia comprado chocolates, e conta que também chegou a ser abordada, mas que a fiscal queria que Vilma abrisse a bolsa. Vilma chegou a dizer que abriria a bolsa na presença da polícia, mas a filha começou a gravar e diz que insistiu que ela abrisse por causa da proximidade com a hora da decolagem. No vídeo, dá para ouvir o diálogo de Danielle com a mãe. "Esqueceu de pagar algum produto, mãe?, pergunta a filha. Vilma: "Eu? Não comprei nada. Como é que vou pagar?" Danielle: "Mãe, não fala nada. Só faz o que ela está pedindo e depois a gente vê. Tira tudo da bolsa, mãe". Um outro vídeo mostra o momento que a idosa cata alguns de seus pertences do chão. "Minha mãe ficou surpresa, revoltada e envergonhada porque a revista foi no meio da loja na frente de clientes e outras pessoas. Foi muito constrangedor", conta Danielle. Nenhuma irregularidade foi encontrada, segundo a família, e nenhum outro passageiro foi revistado. A família afirma que eles não pediram desculpas pelas abordagens, e citam a cor da pele como potencial motivo. "Estamos tristes e traumatizadas até agora. Foi um absurdo!! Cheguei a perguntar se ela estava fazendo isso conosco por causa da nossa cor", escreveu a filha nas redes sociais. O neto conta que o emocional de Vilma está abalado desde então, e que a glicose dela está alta por conta disso. “Por causa do emocional desregulou. Quando ela fala disso, ela chora, super abalada.” A família e a dona Vilma vão à polícia na tarde desta quinta (23). O que dizem loja e aeroporto A Dufry Brasil, empresa do Grupo Avolta onde Vilma foi abordada, divulgou nota pedindo desculpas publicamente pelo "lamentável incidente". A empresa diz que a abordagem foi "absolutamente fora do padrão" do grupo e que a fiscal de segurança foi afastada de suas funções, A Dufry diz ainda que está reforçando todos os procedimentos internos e treinamentos dos funcionários para evitar que esse tipo de situação se repita. A Inframerica, concessionária que administra o aeroporto de Brasília, diz que repudia qualquer tipo de ação discriminatória. Repercussão Escolas de samba, artistas, autoridades e amigos postaram mensagens de apoio a Vilma. A Portela, escola que Vilma fez história, disse que "A luta por uma sociedade mais justa e humana passa pelo combate ao racismo", e repudiou a situação. "É uma sambista de destaque, que trás na pele a marca de nossa ancestralidade. O constrangimento, demonstrado nas imagens divulgadas, é sentido por todos que temos no samba parte importante de nossa identidade, e que enxergamos em Vilma uma de nossas grandes referências", reforça o posicionamento, que pede rigor nas investigações do caso. O portelense e sambista Paulinho da Viola também comentou: "Vilma Nascimento, eterna Porta-bandeira da Portela, foi vítima de um ato inaceitável numa loja do aeroporto de Brasília. Foi obrigada a abrir sua bolsa na frente de todos para provar que não havia furtado nenhum produto. Foi com dor e indignação que vi o vídeo dessa cena lamentável, onde Vilma, constrangida, mostra seus pertences e se explica para uma funcionária. Apesar de todos os esforços que temos feito para combater esse preconceito, ele acontece diariamente toda vez que uma pessoa é agredida, humilhada, constrangida e ferida dessa maneira. Eu também me sinto ferido. Sinto muito, querida Vilma, sinto mesmo. Vc é muito maior que tudo isso." O Grêmio Recreativo Escola de Samba Tradição postou uma nota em solidariedade a baluarte. “Nossa escola acredita na valorização de nossas raizes e não tolera atitudes racistas e preconceituosas. Como sambistas, devemos lutar pelos nossos e defender cada injustiça. Como humanos devemos sempre levantar a bandeira da igualdade, da pluralidade e do amor! Racistas, não passarão!”, afirma o posicionamento. A deputada federal Talíria Petrone também repudiou o caso, e disse que "Esse é um retrato certo de como funciona o debate racial no país. Na prática, o procedimento é outro!". A primeira-dama Janja Lula Silva também postou: "Inaceitável o que ocorreu com D. Vilma em uma loja no aeroporto de Brasília. Exatamente após ser homenageada no Dia da Consciência Negra. Atitudes racistas não podem mais ser toleradas. D. Vilma, sinta meu carinho, meu abraço e minhas desculpas por tanta ignorância e preconceito", escreveu. Homenageada na Câmara dos Deputados Vilma Nascimento na solenidade em Brasília Lula Marques/Agência Brasil Dinastia de porta-bandeiras A trajetória de Vilma foi marcada por vitórias: foi Estandarte de Ouro três vezes seguidas pela Portela (nos anos de 1977 a 1979), e uma pela Tradição, em 1989. Em 2014, foi homenageada pela Porto da Pedra como uma das Majestades do Samba, tema do desfile do ano. Em setembro de 2023, ela tinha recebido uma Moção de Reconhecimento e Louvor na Câmara dos Vereadores do Rio. “Gratidão pelas ‘flores em vida’”, escreveu ela na ocasião. Vilma parou de desfilar em 1982, mas pode se orgulhar de formar uma verdadeira dinastia de porta-bandeiras na família. Ela serviu de exemplo e inspiração para a filha Danielle, porta-bandeira da União da Ilha do Governador e para a neta Camyla, segunda porta-bandeira da Portela. Vilma Nascimento, ex-porta-bandeira, tem filha, neta e bisneta seguindo seus passos no carnaval Alba Valéria Mendonça/g1 Os passos já começaram também a ser seguidos pela bisneta Clarice, de 10 anos. A menina, estreou como porta-bandeira mirim da Mangueira, em 2022. Em 2020, Vilma também foi notícia ao sofrer um acidente no metrô de São Paulo.

source https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2023/11/24/porta-bandeira-historica-fala-sobre-ter-que-abrir-a-bolsa-em-aeroporto-so-pode-ser-porque-sou-negra.ghtml
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